quinta-feira, 19 de novembro de 2015

um

-  uma sopa de abóbora
- um copinho de pinga
- um picolé de tangerina rochinha
- uma fatia de queijo minas
- uma xícara de café tipo casca de ovo com  café bem quente
- um ventilador na velocidade dois
- os pés na banheira
- tônica na geladeira
- uma nota de cinco na calça

sem saber, você salvam o mundo.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

psicanálise

hipótese mais ou menos ficcional: digamos que eu sinta vontade, por exemplo, quando vejo um garçom guardando as mesas de um restaurante,  de ajudá-lo. digamos que conte isso para minha terapeuta, que, por sua vez, interpreta esse desejo como uma forma que ela reconhece repetidamente, em mim, de sempre querer agradar os outros, mesmo desnecessariamente. o que isso significa? 1. ela está certa e os desejos de ajudar sempre têm uma camada subliminar escusa. 2. ela está errada e meu desejo de ajudar é preocupação genuína com o outro. 3. ambas estamos certas. 4. essa interpretação é reducionista e transforma, dogmática e estigmaticamente, um desejo num tabu. 5. a terapeuta é incompetente. 6. por que eu não ajudei o garçom?

sábado, 7 de novembro de 2015

enlatados

matei uma pessoa, mas o assassinato foi com uma arma não letal, um fio de barbante, desses que se compram no supermercado e a pessoa, afinal, nem era tão importante, ninguém vai reparar na sua falta, ele nem conhecia ninguém e ninguém o conhecia e depois eu estava com uma vontade danada de matar uma pessoa, então acho que nesse caso não fiz nada de ilegal, ou ao menos não tão ilegal assim, porque essa pessoa era somente usufrutuário da vida, não exatamente o dono, porque o dono é sempre deus e eu somente desautorizei o usufruto da vida por essa pessoa, ou melhor do ativo "vida" por essa pessoa. eu não tenho ativos desse trust, a vida, sou só mais um beneficiário, que, por uma demanda interna e circunstancial, tirou o benefício de outra pessoa, mas foi só uma vez, um instante, em troca de todo o resto que já fiz nesse benefício, a vida, de todos os outros ativos que já conquistei, não foi nem nada. o morto, agora, é só carne enlatada.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

filha

quando a leda nasceu eu pensei: vai, filha, cumprir a vida de uma mulher. não é fácil não, filha. você vai atravessar as cidades, as ruas, as esquinas e sempre haverá alguém te olhando e você vai correr e chorar e pedir e os outros vão te ajudar e às vezes ninguém vai te ajudar e você vai aprender a se defender e às vezes não vai aprender e eu vou estar onde for preciso para te ajudar, mas tenho medo de não poder estar. mas hoje, leda, tantas mulheres, e homens, vão caminhar juntos, porque hoje é o dia em que todas aquelas pessoas que não puderam estar juntas vão estar. e vamos nos olhar e vai ser bom olhar, porque não haverá esguelhas nem soslaios nem cunhas no nosso olhar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

sardinha

tenho problemas com sequências. coisas que começam, se desenvolvem e terminam. coisas com coisas. coisas que são causas de certas consequências e vice-versa. parágrafos com ideias principais. conclusões. e por quê? porque não conheço nada assim, nem na mais intensa e luminosa - ou obscura - imaginação. menos ainda na vida. na vida, e mais ainda no sonho, o tempo se espreme, se alastra, se comprime e se propaga. mas não segue em linha reta. nada continua como começou, nem mesmo começa antes de terminar. aliás, nada termina. não se pode, pelas consequências, determinar a causa e estas se proliferam de acordo com necessidades, desejos, medos e uma memória falha e que só faz, quanto mais o tempo passa, puxar a brasa para sua sardinha. ou a sardinha para sua brasa, nem sei.

sábado, 17 de outubro de 2015

pão

aleluia, aleluia, farinha na cuia, repetia o tradutor de guimarães rosa, incansavelmente, o dia inteiro, sem conseguir achar a equivalente em alemão. pudera, pois se para nenhuma palavra existe correspondência exata, ainda mais para isso. foi quando à noite, no banheiro, começaram a ouvir um murmúrio lento: hosana, hosana, brot is mana. e foi assim, com o sonho do pão transformado em maná, que fez-se o milagre da versão de uma língua para a outra. e como na língua das línguas, o homem nomeou as coisas com as palavras.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

tempo

por que escolhemos o verbo "passar" para o tempo? o que é passar? transcorrer, mudar, mover-se? nunca ninguém viu o tempo operar estas ações. somente vemos os seres e lugares sofrerem-nas. mas queremos que seja algo que opera, neles, as mudanças e, de alguma forma, ao atribuir tudo ao tempo, recusamo-nos a aceitar que somos nós que passamos, que estamos passando, vamos passar até não podermos mais dizer que está passando, porque passou. para o tempo, nossa invenção para sentir a morte - e, com ela, a vida - talvez possamos dizer que ele é. o quê, não sabemos.