sábado, 12 de setembro de 2009
donas
na sala de espera do ginecologista: você tem babá? ah, não. prefiro não ter. não confio nelas. ah, eu tenho uma que está comigo há trinta e cinco anos, foi minha babá também. vem da bahia, as baianas são de confiança. mas então é diferente. essas que a gente pega aqui se metem em tudo, pensam que são donas da casa, ficam querendo mandar nas outras empregadas. é, aí não dá certo mesmo. e tem mais uma, elas ficam grávidas também. dá pra acreditar? têm a coragem de engravidar. não, donas, não dá pra acreditar. já sabia que a mediocridade burguesa era muito funda, mas quando a escuto assim, em estado bruto, na minha frente, ainda me dói no pé, no umbigo e no centro da alma.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
barquinho
o epicursimo é uma concepção atomista e materialista da natureza, que busca a indiferença diante da morte e uma ética que identifica o bem aos prazeres comedidos e espirituais que, por passarem pelo crivo da reflexão, seriam impermeáveis ao sofrimento incluído nas paixões humanas. mas eu conheço uma canção que é ainda superior ao pensamento epicurista, embora o contenha: row, row, row, my boat, gently down the stream; merrily, merrily, merrily, merrily; life is but a dream. a tradução literal é: rema, rema, rema meu barco; gentilmente pelo riacho; alegremente, alegremente, alegremente, alegremente; a vida não é mais do que um sonho. gosto especialmente da repetição quádrupla do alegremente e, em inglês, de life is but a dream, que é muito mais bonito do que a vida não é mais do que um sonho. como seria bom dizer, em português: a vida é mas um sonho. mas tudo bem.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
jardim
quando uma menina tão linda como ela fica triste, eu me lembro de uma canção antiga e canto pra ela: a menina mais linda do jardim, tem a trança, o sorriso e a boca mais bonitos do jardim; como ela pode ficar triste, se ela é a menina mais bonita do jardim?
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
navajo
Que a sabedoria dos índios navajos esteja sempre comigo.
Feliz com abundantes nuvens negras possa caminhar.
Feliz com abundantes chuvas possa caminhar.
Feliz com abundantes plantas possa caminhar.
Feliz por uma senda de pólen possa caminhar.
Feliz possa caminhar.
Como aconteceu em dias distantes possa agora caminhar.
Que defronte de mim seja tudo belo.
Que atras de mim seja tudo belo.
Que debaixo de mim seja tudo belo.
Que por cima de mim seja tudo belo.
Que derredor de mim seja tudo belo.
Belo belo acaba aqui. Belo belo acaba aqui.
domingo, 6 de setembro de 2009
cossacos
há dias que não me saía da cabeça uma canção russa, de um exército de cossacos, mas cuja letra eu só conheço em hebraico. o refrão diz assim em português: não temos rédeas, mesmo não tendo cavalos; se nos perguntarem sobre o que nós montamos, responderemos: nós montamos sobre nossos cavalos. essas palavras sintetizam uma ideia de desobediência aliada à fantasia que sempre procurei seguir. ao mesmo tempo, elas me surgiram como possibilidade de mote para um conto. mas não consegui descobrir a letra inteira da canção em russo. finalmente, depois de várias buscas, descobri a letra inteira em hebraico e consegui toda a tradução. mas, num determinado momento, a canção fala uma palavra que nenhum google me explicava: budioni. pesquisei em todos os lugares possíveis e nada. após algumas horas, já esquecida disso e depois de receber uma notícia triste, fui me refugiar em um dos livros que mais amo: cavalaria vermelha, do isaac babel. logo na introdução, o tradutor conta que babel era membro da cavalaria vermelha, onde serviam também vários cossacos. o destacamento ao qual babel pertencia era comandado pelo soldado budioni. e foi assim. quase cem anos depois da revolução vermelha, aqui no brasil, a palavra budioni saltitava na minha cabeça e dormia no livro de babel, na estante da minha biblioteca. desavisadamente, fui a ponte e o destinatário de budioni. budioni, babel, canção, cossacos, notícia ruim, tempo, vocês todos formaram subitamente uma massa única e eu agradeço a todos vocês.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
chão
em éfeso, supostamente a cidade em ruínas mais conservada da europa, soube que haveria um concerto, à noite, no teatro romano. chegando lá, o concerto era fechado. só para convidados importantes. esperei a chegada dos músicos - uma orquestra de câmara de músicos pobres e instrumentos cansados (exatamente como eu mais gosto) - e entrei com eles, fingindo ser musicista também. a antiga cidade romana vazia, numa noite de lua cheia, iluminada para a ocasião, e o teatro romano íntegro, cheio de convidados que vinham de um cruzeiro para petroleiros americanos, assistir a um concerto exclusivo de mozart. os convidados, champagne, caviar e eu. no intervalo, a hostess do navio veio gentilmente me perguntar: você é passageira? não, não sou. sinto muito, senhora, mas será necessário retirar-se. saí e fiquei do lado de fora, sentada no chão ancestral de éfeso, onde pisou heráclito, que descobriu a história de nunca duas vezes no mesmo rio, ouvindo o resto de mozart. meu amigo ainda conseguiu dizer para a hostess: já fui expulso de lugares melhores! eu nunca fui.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
oitocentos
descobri o contato do gerente do restaurante fasano e escrevi para ele: sou professora há mais de vinte anos, doutora pela universidade de são paulo, colaboradora de um dos maiores jornais do país e gostaria muito de jantar em seu restaurante. mas não posso arcar com os custos. ele respondeu que me receberia com prazer e que daria um desconto de trinta e cinco por cento. mas qual é o preço de um jantar para dois? oitocentos. com trinta e cinco por cento fica cerca de quinhentos. senhor gerente do fasano, mesmo assim não posso ir. senhor gerente do fasano, o senhor poderia me explicar a origem de todas as injustiças - sociais, econômicas e culturais, no brasil e no resto do mundo inteiro?
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