sábado, 17 de outubro de 2009
coisas
essa é a centésima vez que escrevo aqui e meu desejo é que este blog continue a ser escrito com o espírito e a força do sem-querer, uma das melhores coisas da vida e uma das coisas que a faz ser bela, apesar de toda a chatice das coisas feitas de propósito.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
shampoo
estou fazendo uma tradução simultânea sobre uma nova marca de shampoo. enquanto aguardo a outra tradutora, estudo lukacs, para um curso que vou dar sobre teoria do romance. na sala em que estudo e leio sobre a decadência da objetividade redentora na direção de uma subjetividade perdida, os representantes da nova marca de shampoo falam que o comercial com a chuva não funciona muito bem para mulheres com cabelos ressecados. fico ali pensando que essa confusão e coincidência de registros tem algo de muito bom: é verdade, a subjetividade perdida está lá, no shampoo e na respectiva propaganda. mas, ao mesmo tempo, que chato seria se não existisse um shampoo para me salvar dela.
sábado, 10 de outubro de 2009
escolha
às vezes, percebo que, nas minhas escolhas, existe um componente suicida. me atiro nas coisas perigosamente, sem pensar, para depois descobrir que não deveria. como um exemplo pequeno: se estou dirigindo e falando ao celular, e dou de cara com um guarda de trânsito, ao invés de disfarçar o celular, eu o mostro com todo desprendimento. como um exemplo grande: aceitei uma proposta de trabalho absurda, mal paga e difícil, sem nem ao menos hesitar. faço coisas assim desde pequena. e mais, não me arrependo. esta forma miúda de suicídio me dá um estranho orgulho e me constitui. preciso disso para me sentir ativa e minimamente marginal. talvez não sirva para nada e até me faça um pouco mal, mas preciso sempre morrer um pouco para estar bem viva.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
lóbulo
no ginásio, o henrique e eu éramos os esquisitos. e gostávamos muito de ser assim, inclusive encenando esse papel com eloquência e exagero. o henrique bem mais do que eu. o clóvis era o professor de educação moral e cívica. ele era baixo, gordo e muito bonzinho. o henrique gostava de apertar o lóbulo da orelha dele, que era gordinho. na aula de religião judaica, estudamos a respeito de um rabino medieval que se chamava ibn shaprut. o henrique matava aula e passava em frente à janela da sala gritando: ibn, calibn! ibn, didn, cleibn, vafn, lero, lero! como é bom ser esquisito.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
mãe
quando eles eram pequenos, inventava várias personagens que eram as mães chatas. tinha a nordestina militante de esquerda, a super protetora excessivamente carinhosa, a opressora niilista, a deprimida negligente. eles me pediam: mãe, faz uma mãe chata! agora vão os dois viajar e ficar um ano fora do brasil. sinto calores fora de hora, às vezes um gosto amargo na boca, vontade de ir junto ou uma alegria ridícula porque eles vão ficar tão bem sozinhos. ensino os dois a fazer comidas, o melhor produto para limpar sujeira, peço para me contarem até sobre uma velhinha que eles vão encontrar numa esquina. pronto. virei uma mãe chata.
domingo, 4 de outubro de 2009
estatuto
guardo comigo alguns segredos completamente bobos, mas que faço questão de não compartilhar e que considero quase sagrados, talvez justamente por sua insignificância. cuido de alguns deles diariamente e sei que eles se tornaram meus companheiros. outros não. até esqueço que existem, mas eles caminham comigo. assim sendo, vou criar o primeiro artigo de um novo estatuto dos direitos ao avesso do cidadão: todas as pessoas, desde as crianças até os mais velhos, devem ter pleno direito à mentira e ao segredo. ninguém deve desvendá-los nem desmenti-los; quem transgredir este direito receberá a pena de ter que ouvir a verdade, somente a verdade, durante muitos anos seguidos.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
dança
estamos ensaiando a música ping-pong, do gilberto gil, na academia da claudia mello, para dançar no jardim da luz. somos cinquenta mulheres, baixas, altas, gordas, magras, mais velhas, mais jovens, todas juntas cantando yes-me-we, I and I. somos companheiras, comendo o mesmo pão, rindo juntas dos nossos erros, que são, no momento da dança, o que cada uma tem de melhor. somos lindas porque estamos juntas, porque somos eu e nós, eu e eu, porque cada uma é eu e, nessa hora, excepcionalmente, esse eu é imenso e nele cabem todas as mulheres do mundo.
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