quinta-feira, 11 de março de 2010
oração
na letra c do fabuloso alfabeto de paul valéry, ele diz: "é por isso que não se deve orar senão com palavras desconhecidas. devolvei o enigma ao enigma, enigma por enigma. elevai o que é mistério em vós ao que é mistério em si. há em vós algo que é igual ao que vos ultrapassa". na oração, não se sabe o que se ora, nem por que, nem para quem, sob pena de que, com alguma finalidade, a oração se torne também ela um meio. a oração é puramente a permissão de que algum enigma saia e penetre no corpo, pela voz. é a pausa ou o silêncio feito com palavras. não é preciso compreendê-las, como elias canetti em marrakech, que se comprazia em não compreender o que diziam os marroquinos. há oração como essas vozes?
quarta-feira, 10 de março de 2010
endereço
vou criar a categoria do metapost. metapost: quando um post comenta um comentário de outro post. escrevi sobre a aventura com a semolina e o restaurante arábia comentou, me mandando exatamente a receita do doce que eu queria fazer. imagino o post girando em circunvoluções pelas entranhas da internet, a semolina se pulverizando pelas fibras invisíveis, até chegar num endereço que era o que eu queria, mas que sequer tinha imaginado.
segunda-feira, 8 de março de 2010
semolina
quis fazer doce de semolina igual ao do restaurante árabe. fui até o pão de açúcar aqui perto. não tinha semolina e ninguém sabia o que era. descobri que em um pão de açúcar não tão perto, eles tinham oito unidades. decidi ir até lá. demorei uma hora e meia porque era horário de rush, tinha muito trânsito e eu me perdi toda num dos bairros que eu mais detesto em são paulo. mesmo assim, sentia que atingir aquela farinha era como uma caçada inútil e necessária no meio de tantos carros e obrigações. cheguei lá e a semolina já estava me esperando na frente dos caixas. o pacote estava furado e a farinha vazou por toda aquela área do supermercado. peguei outro. demorei mais quarenta minutos para voltar, cheguei em casa e logo percebi que a receita era ruim. além disso, eu não tinha fermento para o doce nem limão para a calda. fiz o doce, que ficou horrível e a calda, que queimou. mais uma vez me senti idiota, como se o gozo da caçada inútil fosse um luxo para caprichosos ou ociosos bobos. mesmo assim, no dia seguinte, tentei de novo, com outra receita. deu certo e já me sinto disposta a muitas procuras inúteis novamente.
sábado, 6 de março de 2010
jeito
para dizer de jeito nenhum, dizia "de deto dedum". para dizer música, dizia "múcuna". para dizer mickey mouse, dizia "mickey nonatch". para dizer copo, dizia "póco". agora diz tudo certo, mas sempre de um jeito que só ela sabe dizer.
quinta-feira, 4 de março de 2010
lembrança
hoje me lembrei que, em vez de dizer "quer queira quer não", meu pai dizia "quer quer quer não". achei muito mais bonito e me deu muita saudade.
quarta-feira, 3 de março de 2010
noruega
estava escrevendo um conto sobre a palavra uivo e usei como personagem a protagonista de um conto de borges, ulrica. num determinado momento do conto (de borges), ela diz: "apressa-te. é o último chamado do lobo", ou algo assim. desenvolvi o conto colocando um poema na voz de ulrica, que falava de lobos e de morte, tudo em norueguês. quase chegando ao final, fui olhar o significado de ulrica nessa língua que, para nós, é como um misto de bruma, falésias e vikings, e vi que é "o poder do lobo". senti-me subitamente apoiada sobre os ombros de borges, galgando por planícies de oslo cheias de dicionários multilíngues espalhados pelo caminho. borges ficava costurando segredos nas palavras e não contava para ninguém. cabe a nós, leitores desfazedores de nós, eventualmente descobrirmos onde eles estão.
segunda-feira, 1 de março de 2010
alma
roland barthes conta que, ainda no século XIX, michelet foi despedido de seu cargo como professor do collége de france, onde o próprio barthes lecionou. na sua despedida, os alunos, para tentar consolá-lo, lhe disseram: "professor, o senhor não nos ensinou nada. somente nossa alma é que voltou para o seu lugar". barthes usa isso como um exemplo do que ele chama de "desaprender". era essa a educação que ele praticava. não ensinar, mas aprender a desver as coisas do mesmo jeito (e não aprender a ver as coisas de outro jeito). ensinar não tem mesmo a ver com o quê, mas com o como. o "quê" do ensino, quando é inteiro, é também um "como". quando se está junto de um professor como barthes, uma professora como eu fico pequena, embora tudo na sua prática seja contra essa comparação. é um professor que ama o tempo todo. ama o erro, ama a fala, ama a falta. minha alma, ao lê-lo, sempre caminha para mais perto de seu lugar.
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