segunda-feira, 13 de setembro de 2010
ovos
ele foi visitar o campo de concentração onde esteve sua avó e encontrou ali, no chão, uma nota de cem zlotys. como estava junto com um grupo de mais vinte pessoas, todas jovens como ele, resolveu que aquela nota poderia transformar aquela viagem numa lembrança única, como era única sua passagem por lá, onde sua avó, cuja história, embora em tudo se assemelhe a de tantos outros prisioneiros, também viveu uma história única. passou por uma loja de lembranças e comprou vinte ovos de cerâmica decorados, típicos dessa região da europa. no final da viagem, ofereceu um ovo a cada membro do grupo. o dinheiro no chão do campo de concentração, que lambia a face da morte, se transformou, pelas mãos de um menino, em ovos de páscoa para vinte jovens brasileiros e a vida então cresceu, se multiplicou e da memória nasceram ovos únicos e bonitos.
sábado, 11 de setembro de 2010
camundongo
em mais um livro inacreditável de philip roth, o teatro de sabbath, ele fala dos três camundongos cegos: iria, deveria e poderia. sim, são mesmo três camundongos cegos essas criaturas tirânicas conjugadas no futuro do pretérito. pequenos, horríveis, temerários e nunca conseguimos matá-los, mesmo que sejam cegos. sua cegueira os fortalece, os torna companheiros no infortúnio, que é o pior tipo de parceria que pode haver. juntos, eles decidiram rir da nossa cara; nós, criaturas totalmente submetidas ao seu poder. é preciso fundar a revolução do presente do indicativo, feita de gatinhos, cachorros e elefantes que enxergam, fazem barulho, não precisam ser exterminados e gritam pela cidade, em altos brados: devo, posso e vou.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
skype
a moça do ibge veio aqui. perguntou: tem filhos? disse que tenho e que os dois estão fora do país. daí falei: graças a deus que tem o skype. sem ele não sei o que seria de mim. ela perguntou: é seu marido?
terça-feira, 7 de setembro de 2010
doce
doce de papoula; sundae de chocolate com cobertura e fundinho de chocolate; torta de ameixas e damascos; rocambole de nozes; bolo de mel; tiramisu; brigadeiro; bolo bem molhado de coco; bolo bem molhado com abacaxi em calda virado de cabeça pra baixo; doce de semolina com amêndoas; doce de pistache; doce de leite; doce de abóbora sem coco e com coco; doce de mamão em pedaços grandes; torta de ricota doce; doce de casamento com aquela noz bem grande no meio; bolo de casamento molhado com gosto de nada; bolo com recheio de doce de leite; suspiro; só a raspinha de chocolate dos bolos de aniversário; bolo de fubá; pamonha; sorvete de pistache queimado; picolé de coco queimado da praia do gonzaga; compota de pêssegos da minha mãe; pão doce com creme escorrendo para fora; sonho de padaria; biju; bis bem geladinho; chocolícia; crepe de banana; qualquer coisa com banana doce; farofinha doce; bolinho com geléia de goiaba da minha mãe e todos os doces gostosos nesse ano de cinco mil setecentos e cinquenta e um novo e doce que vai começar.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
dança
fui ver o ensaio dos dançarinos da são paulo companhia de dança. não consigo nem imaginar que o espetáculo seja mais bonito do que o ensaio. ensaiando, eles se olham no espelho, testam todos os movimentos diversas vezes, sorriem e fazem caretas e eu, a espectadora, posso ver os seus corpos bem próximos de mim. não são corpos. são verdades moventes, extensões do espaço, a própria verticalidade e horizontalidade caminhando puras em minha direção. a linda menina que faz o fauno de debussy, depois do ensaio, vem conversar comigo: "como a vida é sem graça quando não sou um fauno." menina, você é a graça que, por sorte, também solta palavras que consigo entender. as outras, as línguas que esses dançarinos falam, estão em dicionários secretos e é preciso conhecer códigos ocultos para abri-los. por enquanto, só me resta olhar, por uma fresta do muro do mundo, essa totalidade que fala uma língua adâmica.
sábado, 4 de setembro de 2010
paixão
pelo que uma pessoa se apaixona? nada de substantivos abstratos, ideias, comportamentos. ninguém se apaixona pela inteligência, a generosidade, o caráter. o que move o pathos, essa febre que junta o corpo e a alma mais do que muitas religiões, é a pálpebra caída, o paletó amassado, dois canudos no lugar de um e o jeito mais aberto de pronunciar uma letra.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
sapatos
ali, deitada na cama dela, fiquei olhando os sapatos ao pé do armário e o cabide pendurado na maçaneta da porta. no cabide, a roupa que ela vestiu ontem. a camisa lisa de manga estampada, com as mangas ainda arregaçadas, tão a cara dela, tão bem penduradinha. a bolsa imitando couro de crocodilo, compacta, com um fecho dourado, em outra maçaneta. outra bolsa mais para um canto mostrava que ela tinha ficado na dúvida, na noite anterior, sobre qual combinava melhor com a roupa. mas os sapatos, especialmente eles. pequenos, com um salto baixo, também bege, ali, um ao lado do outro, me fizeram pensar como aquilo que eu via era ela viva, como a sinto viva e próxima naqueles sapatos dispostos daquela forma e como não quero nunca vê-los guardados não ali, mas dentro de algum armário.
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