terça-feira, 19 de julho de 2011

ideograma

a escrita fonográfica franqueia a compreensão a todos, de forma fácil e razoavelmente intacta, em todas as épocas e gerações. tudo bem. a escrita ideogramática é mesmo mais elitista e complicada. mas como não invejar um alfabeto em que a palavra "não" é um ideograma de uma planta cortada na base e a palavra "sim" é o ideograma de ser?



domingo, 17 de julho de 2011

frustração

um dos índices mais significativos de como cada um é inapelavelmente solitário é a tentativa sempre frustrante de contar um sonho - bom ou ruim - a alguém, mesmo que seja alguém bem próximo. durante o sonho, vive-se com máxima intensidade e frescor cada cena, cada sensação, especialmente quando se trata de um pesadelo, quando o horror parece interminável, completo. acorda-se e agarra-se a tentativa de contar. nesse instante, parece que contar será tão certo e poderoso quanto o sonho. e aí, a revelação: as palavras não alcançam nem uma fração do que se viveu e o outro diz, no máximo: nossa, que coisa!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

babel

não entender o que se fala pelas ruas, não ser conhecido por ninguém, não saber onde ficam os lugares, não conhecer os costumes locais e comportar-se de forma desajeitada: essa é a bênção de babel e abençoada seja a ambição humana por essa punição libertadora.

terça-feira, 12 de julho de 2011

londres

londres: a cada seis minutos passa um ônibus para trafalgar square, mas só às terças, entre as doze e as doze e quarenta e quatro. depois desse horário, até às dezesseis e treze, passa um a cada quatro minutos. para se sentir nervoso, só aos sábados, entre as quinze e as quinze e dezessete, e só por nove minutos. a cada três minutos passa alguém chateado, entre as ruas brick e st. george. se quiser dar um grito, pode; mas só em altura moderada, em leicester square, no primeiro domingo de um setembro nublado e só às sete e doze. para outras informações, ligue para o serviço de atendimento, que só funciona hoje, entre agora e daqui a dois minutos, mas só às segundas no primeiro horário da manhã, se houver mais de sete nuvens no céu.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

consumo

consumir: mercadorias, lugares, obras de arte, é manter-se como centro da circulação das coisas e do tempo no mundo. a cada sensação de consumo realizado, é como se as coisas, o objeto consumido, mesmo que seja uma paisagem, tivesse sido feito exclusivamente para o eu. o tempo passou e tudo aconteceu para redundar no corolário final: o eu. depois que o eu consome aquilo, tudo bem, aquilo já pode deixar de existir. pode desaparecer, se quiser.

terça-feira, 5 de julho de 2011

ferida

numa entrevista, anish kapoor diz que existem basicamente dois tipos de artistas: os que mostram a ferida e os que buscam curá-la de alguma forma. de qualquer maneira, os dois concordam que a ferida existe.nada melhor do que isso para responder aos críticos de uma arte que, para muitos, é ingenuamente otimista. não é otimismo. é só uma constatação. está doendo; se soprar, alivia um pouco.

sábado, 2 de julho de 2011

ideia

ideia meia boca de nome para uma exposição sobre tudo o que aconteceu desde o final do século dezenove até hoje: de gogol a google.