quinta-feira, 19 de abril de 2012

fusão

embora goste muito das narrativas fluentes, também sempre me senti atraída por aquela que os críticos chamam de literatura difícil - obscura, cifrada, experimental. octavio paz, no livro sobre marcel duchamp, o castelo da pureza, explica justamente que a arte fundida à vida - que todos sempre pensamos tratar-se da indistinção entre a biografia do artista e sua criação - pode também ser a arte difícil, porque é ela que obriga o leitor e o espectador a converter-se em um artista ou um poeta. o ciframento linguístico, contanto que carregado de intencionalidade, faz com que o leitor pare, demore, estude e reconstrua a linguagem e o conteúdo do texto. a arte, assim, necessariamente se funde à vida do leitor e não somente à do artista.

terça-feira, 17 de abril de 2012

sun yi



sun yi chi, a quarta soldada da primeira fila, contando da esquerda para a direita, acordou cansada. abotoou mecanicamente seu uniforme, engraxou os sapatos (que estão apertados por causa de um calo insistente), tomou o mingau com as colegas e saiu para o desfile. nesse instante exato, ela está pensando em seu pai, chon ho, que ontem, segundo lhe contaram, teve um mal-estar. ela também pensa nas montanhas, nas galinhas e na plantação de lavanda que ela deixou em pyoktong, a trezentos quilômetros de pyongyang, onde ela está agora.

sábado, 14 de abril de 2012

muito

por que será que a ideia de "muito", em português, pode ser expressa pelo advérbio "bem", como em "bem cansado" ou, o que é mais estranho "bem mal"? de onde vem a associação entre as noções de "muito" e de "bondade"? de maneira semelhante, em inglês, o advérbio "very" está relacionado à "vraie", que é verdade. deve ser por causa dos universais platônicos: o bem, o belo e a verdade. aproximar-se deles, ou que seja ao menos pronunciá-los, já dá a ideia de muito.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

segurança

teoria estapafúrdia com um pouco de lógica: se todos andarem com as janelas do carro abertas e se todas as casas tiverem muros baixos, ou melhor, muro nenhum, os ladrões pensarão que ninguém os teme porque, provavelmente, nada tem a perder. assim, a melhor medida de segurança é abolir por completo as medidas de segurança.

domingo, 8 de abril de 2012

poesia

sempre adorei o poema de vinicius: "o mundo é esquisito: tem mosquito", porque achava que ele sintetiza todo o estranhamento que sinto diante do que o mundo tem de espantoso e de incômodo, além de falar também sobre o efeito de condensação da própria poesia. mas quando uma pessoa querida morre subitamente, jovem, na hora do lançamento do livro do marido, que dedicou seu livro maravilhoso de poemas justamente a ela, aí não acho mais esse poema bonito. o mundo é muito mais esquisito, estranho, chato e ruim do que os mosquitos e a poesia é muito menos do que sua condensação. a poesia não é nada e o mundo vira uma droga.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

sulco

foi com um espanto grave que li, nesta semana, que o hábito forma sulcos no cérebro e que, quando os estímulos nervosos atravessam os caminhos sulcados, caem inevitavelmente nessas depressões encefálicas, obrigando-nos a repetir nossos gestos e reações. decreto que a função dos poetas é, desde sempre e para sempre, pular, desviar-se, preencher e criar outros sulcos no cérebro, mais rasos, mais numerosos, mais enganosos.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

borges

outro dia soube que jorge luis borges, em sua primeira visita ao brasil, ainda não tão conhecido aqui e cansado de ir a tantos jantares, onde não podia falar em profundidade sobre assunto nenhum, perguntou a um amigo seu se havia algum lugar onde poderia dar uma palestra. o amigo respondeu que sim, que ele mesmo dava aulas no supletivo santa inês. no dia seguinte borges deu uma aula no supletivo santa inês, para cerca de vinte alunos. perto do final, um deles perguntou o que era coragem, ao que borges respondeu: ah, isso é assunto para uma outra aula. e voltou no dia seguinte.
(história contada por jorge sallum)