sexta-feira, 13 de maio de 2011

pedido

katherine mansfield, pouco antes da morte, disse: "se eu pudesse fazer um único pedido a deus, ele seria: eu quero ser real". o que é ser real? não é ser verdadeiro, porque a verdade está relacionada à moral ou à filosofia. o oposto de verdadeiro é falso e não irreal. o real está ligado à própria existência física. talvez o fato mesmo de querer ser real, ou seja, não ser ficcional, é que impeça alguém de sê-lo. querer ser real já é, em si mesmo, uma elaboração ficcional, de alguém que fabula a própria vida. será que a única maneira de ser real é não querer sê-lo?

quarta-feira, 11 de maio de 2011

metrô

a cidade da higiene, higienópolis, não quer o metrô. o metrô é subterrâneo e sabe-se lá o que pode surgir das entranhas da terra: ratos, sujeira, lama, estranhos. o estranho é o outro e os princípios de limpeza e asseio não toleram esse corpo diferente. para manter a higiene é preciso bastar-se com o mesmo.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

conselho

não saiba, não decida, não pense. seja, por um pouco, a água que se transforma em água: no rio, na chuva e no copo.

sábado, 7 de maio de 2011

azeite

como é possível que a água do banho e o gosto do azeite tenham vencido e tenham até mudado a direção da raiva que eu vinha sentindo? a sensação tem, sobre o sentimento, a força que o silêncio tem sobre a palavra. dilui e desarma.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

girafa

o elefante é o tempo. a girafa é o espaço. ele fica, ela passa. ele é, ela está. ele cresce para baixo e para os lados; ela cresce para cima e para a frente. ele pensa, ela age. ele lembra, ela esquece. ele é zeloso, ela é descuidada. o elefante diz para a girafa: girafa-espaço, pare um pouco. não fique tão agitada. a girafa não escuta direito, porque viu uma coisa interessante lá adiante e já ia naquela direção, mas responde: tempo-elefante, você pode repetir?

terça-feira, 3 de maio de 2011

anágua

minha avó tinha vergonha de se sentar porque saberiam que ela tinha bunda; nunca se viu nua, porque tomava banho de anágua; comprava um frango na segunda-feira e ele tinha que durar a semana inteira; comprava três pacotinhos de chocolate, escrevia os nomes das netas no diminutivo e nos entregava na sexta-feira à noite: stelinhu, janynhu, noeminhu; não comia nada na casa dos outros, só na própria casa; fazia doce de casca de melancia; usava corante nos bolos e eles ficavam verdes, azuis, vermelhos; só andou de ônibus até morrer, porque se recusava a pegar um táxi; guardava o dinheiro que tinha em caixas de sapatos; ria muito e gostava de rir conosco. quando a leda era bebê e ria, ela gargalhava e dizia em alemão: sie lach!

domingo, 1 de maio de 2011

música

a música é um quimono que, primeiro, vem descendo como uma pena pelo ar, envolvendo o corpo lentamente até ajustar-se em todas as dobras, reentrâncias e saliências. depois, ela mesma começa o trabalho de ajustamento e amarrações, enfeixando-se em laços, cordões e pequenos nós, até atar-se ao corpo como um paramento que já tivesse nascido conosco ou nos preparando tanto para uma festividade como para ir à padaria. vestidos de música, a certa, podemos ir a qualquer parte.