quarta-feira, 3 de agosto de 2011

presença

por algum tempo (pouco que seja) estar longe de si, ausente de si, sem saber qual é o sentido de se ter o nome que se tem, o tamanho, o peso, o volume. ser uma presença sem ideias e passar.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

irmã

moishe schick, iugoslavo, imigrou para israel em mil novecentos e quarenta e nove. foi morar em um kibutz, onde trabalhava como eletricista. lá, ele teve cinco filhos, com uma mulher tcheca que conheceu num campo de refugiados. em mil novecentos e oitenta e três, morreu de câncer no pulmão. hoje, depois de uma busca entre obsessiva e mágica, falei com sua filha mais nova, shlomit, que ainda mora no kibutz e é psicóloga. contei a ela que seu pai foi namorado de minha mãe, antes da captura pelos alemães, em mil novecentos e quarenta e quatro. ela disse que poderia ter sido filha da minha mãe e eu, que poderia ter sido filha do seu pai.de certa forma, nós somos.

sábado, 30 de julho de 2011

maysa

nós duas nos reencontramos, depois de algum tempo sem nos vermos, e ficamos a conversa inteira a ponto de chorar. não que houvesse motivo. era porque o tempo se arredondava de tal forma, que o passado mergulhava no círculo e quando ele saía de lá, já era o presente, que então mergulhava de novo e voltava a ser passado. o que dizíamos era compreendido antes de terminarmos a fala; o que não dissemos também se ouviu e se aceitou. os livros que lemos em comum e também os que não lemos ficaram nos esperando para entrarem na conversa. esperem, nós dissemos, a vez de vocês virá. ela é minha amiga e eu sou amiga dela.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

carro

o joão e eu temos carros iguais. ele disse que pegaria o meu carro para sair, mas não pegou. quando fui sair, entrei no meu próprio carro, achando que era o dele. fiquei dirigindo e pensando: o carro dele é realmente mais macio do que o meu; e está bem mais limpo também; pena que não tem som (o meu tem e o som estava lá); as marchas deslizam com muito mais facilidade e o motor não faz barulho.

terça-feira, 26 de julho de 2011

sujeito

até o século treze, sujeito queria dizer súdito, subordinado, aquele que se submete. dali em diante, passou a significar pessoa indeterminada. é certamente daí que deriva o nosso sujeito, agora não mais como súdito, mas justamente o oposto, como aquele que é dono de si mesmo. mas não espanta e, ao contrário, me agrada, que, na ideia original de autonomia do sujeito, haja também a ideia de submissão.para ser autônomo é preciso saber servir, ou melhor, a autonomia não tem graça quando ela exclui servir. como é bom colocar-se à disposição, fazer para alguém e, de vez em quando, até desaparecer para que o outro apareça.

sábado, 23 de julho de 2011

exceção

não suporto o argumento, tão comum e aparentemente convincente, de que se uma exceção for aberta a uma situação, então ela terá que ser aberta a todos. não é absolutamente assim. exceção é exceção. quando ela se abre a alguém, ela é particular. um precedente não autoriza a universalização da exceção. o legal de estar com as pessoas é tratá-las individualmente e considerar cada circunstância como única e não como uma possibilidade de que outros também tentem aproveitar.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

turismo

um roteiro de são paulo para turistas tortos: rua três rios, no bom retiro, onde tem uma doceira sérvia com strudel de papoula e de nozes; rua correia de melo, no bom retiro, onde tem o restaurante shoshana e se come shivapsheshe, com carne moída bovina e suína misturada;rua afonso pena, no bom retiro, onde tinha um prédio com mural do aldemir martins, que por isso era considerado o prédio mais chique do bairro; rua guarani, no bom retiro, onde tem a mercearia menorá, que tem pão preto como fazia o seu jaime; o largo do arouche, porque é bonito e o parque da previdência, porque é pequeno, lindo, silencioso e fica perto da minha casa.