sexta-feira, 27 de maio de 2016

carícia

pegue uma frase qualquer, extraída de um ensaio filosófico. digamos, essa: "a capacidade de receber representações dos objetos segundo a maneira como eles nos afetam, denomina-se sensibilidade", de kant. em seguida, inicie um processo lento de carícia semântica. acaricie as palavras "capacidade", "receber"e "representações" , fazendo movimentos circulares com os dedos polegar e indicador sobre cada uma delas, de modo a amaciá-las até que elas fiquem tenras. reserve. depois de cerca de cinco minutos, você verá que elas terão se transformado em "girassóis amarelos" ou ainda "gravata florida". passe agora para as palavras restantes: "objetos", "maneira", "afetam" e "sensibilidade". dessa vez, aperte suavemente as consoantes, girando os dedos na horizontal e na vertical, até que você sinta cederem a resistência e a rigidez, dando lugar a um relaxamento total, quando então as palavras passam a topar qualquer parada, até virarem, praticamente, literatura. vá dormir. quando você acordar, surpresa: encontrará palavras calmas, descansadas, dizendo coisas desse tipo: "a pintura de girassóis amarelos me faz um bem danado" ou "aquela música do jorge benjor, caceta!"

sexta-feira, 20 de maio de 2016

amor

quer escrever uma cena de amor? faça assim: diga que um menino de nove anos acorda todo dia de manhã bem cedo para ir à escola. ele desce os degraus da escada de sua casa de quatro em quatro, sai de casa, anda uma quadra e toca a campainha da casa de seu amigo, pierre. é uma casa muito pobre, de um único quarto, que o menino divide com a mãe e mais dois tios, ferroviários. pierre está sempre atrasado e sai do quarto correndo, segurando uma tigela de onde tenta engolir correndo o café com leite que sua mãe preparou. todos os dias, sem exceção, a mãe o vê nessa pressa excitada e, sorrindo afobada, diz: "assopre forte, que esfria mais rápido".
(inspirado em cena de "o primeiro homem", de albert camus)

quarta-feira, 11 de maio de 2016

psicanálise três.

digamos que um psicanalista descobre, na fala de um paciente, um lapso que trai sua aparente generosidade. ele descobre, no fundo de uma fala inocente e humilde, um desejo narcísico e vaidoso. a partir desse momento ele passa a revelar, ao paciente, que sua bondade não é mais do que um disfarce útil e repressivo de um narcisismo mal resolvido. me pergunto: e daí? isso não pode revelar, na verdade, um julgamento moral do inconsciente alheio, por parte do psicanalista? não pode revelar mais sobre quem fala do que sobre quem sofre o diagnóstico? não seria toda generosidade o disfarce de um narcisismo enrustido? isso não seria uma forma madura de lidar com o problema, se é que se trata de um problema? o psicanalista pode acusar o inconsciente do paciente? não se corre um risco aí ou se trata simplesmente de uma prática simplista da psicanálise e o psicanalista é ruim?

terça-feira, 3 de maio de 2016

banana

no rio negro tem um macaquinho com um filhotinho nas costas. estou aqui, tão cansada, meu deus. mas o macaquinho está lá. conforto passageiro, eu sei, minha virgem santa. mas por ser passageiro é bom. o macaquinho é passageiro. a virgem santinha também é. e eu e meu cansaço. filhotinho, você vai crescer e um dia, outra vez, vou te dar banana.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

falcão selvaaaaaageeeeeem

matisse, bach, caetano veloso, uma montanha, um cornetto na padaria, uma cerveja, a cachorra e o pelo dela, ainda o rabo dela abanando amoroso, ler patti smith, comprar um terreno caríssimo na praia, que não vale nada, mas alegra, como ela fez, dar cinquenta reais para alguém e ficar mais leve, comprar um bilhete inútil de loteria, cantar a música antiga do lenine desafinado: "o falcão selvaaaaageeem, o falcão selvageeeeem". tudo isso não é fugir. ou melhor, é fugir sim. é distrair-se, e distrair-se é sair dos trilhos. e sair dos trilhos é voltar para o mundo. porque o mundo é uma bola e, como disse o desafinado heráclito, pantha rei. por isso, fujo. fujo para voltar ao lugar certo.

sábado, 16 de abril de 2016

etimologia

quase me arrastando de tristeza, vou ficar com a etimologia. ela descobre vínculos entre o que é aparentemente separado; reconhece o igual no diferente e o diferente no igual; estabelece pontes entre o passado e o presente; desdobra o presente em novidades; recarrega as palavras de concretude e proximidade com as coisas; inventa possibilidades e arma mentiras plausíveis, que às vezes se tornam verdades alvissareiras. ela não redime, porque o que redime também mata. mas ela alegra e se oferece, gratuita. é a puta que eu não consigo ser.

domingo, 3 de abril de 2016

manu

no dia em que soube que a querida manu morreu, estava caminhando na rua pinheiros, triste, quando uma mendiga me parou e disse algo de que eu só pude ouvir o final: "dois reais". tirei quatro da carteira e ia dando a ela, quando ela disse: "então me deixe lhe dar suas sementes. essa aqui é de fibra de coco e essa outra é de cupuaçu. elas estão secas, parece, mas se a senhora umedecer, elas vão brotar e germinar. essa aqui, de coco, lembra uma, como é que chama, uma orquídea. é uma vagina lilás". fiquei olhando. "a senhora é de onde?", ela perguntou. "de são paulo mesmo". "mas mora onde?'. "no butantã". ela me olhou, expressando algo que parecia pena. também tenho pena de mim, uma passante burra que não entende nada. mas, naquele momento, pensei que o mundo contém a manu e que a manu o contém. que somos um e somos muitos, sempre os mesmos e sempre outros. que o tempo voltou para trás e foi para a frente e a manu é a mulher, a mulher é a semente e que é só umedecer, porque vai germinar. uma vagina lilás, uma orquídea, nossa manu, eu e você,