sábado, 23 de maio de 2015

davi e silvio

"ele falou baixinho: agradece os clientes por mim e cuida da mãe". "eu sei que não vou sair dessa, davi". foi isso que o silvio disse para o irmão, davi, antes de morrer de uma infecção numa úlcera  mal medicada, em dezembro do ano passado. e foi isso o que o davi me contou, ontem à noite, no pascuale, explicando por que tem trauma de andar de moto. era o silvio que o levava para casa, todas as noites e ele não pode subir numa moto porque lembra do irmão, "que foi como um pai para mim". a mãe, cearense, agora está aqui e davi está cuidando dela. o silvio, que era chef de salão, digno que só ele, e agora que só o irmão, faz falta para nós, os clientes a quem ele pediu para agradecer. agradecer o quê, silvio?

quarta-feira, 13 de maio de 2015

utopia

no início o homem criou a cidade e o campo. e na cidade os homens se organizavam e desorganizavam, e no campo os homens se espalhavam e se concentravam. e o homem viu que era bom. dia um. no dia dois, o homem criou as palavras e, com elas, os nomes. e os homens passaram a se chamar uns aos outros e as coisas se aproximaram. e o homem viu que era bom. dia dois. no dia três, o homem criou as trocas e os presentes. e os homens, nas cidades e nos campos, trocaram pimentas por burros e palavras por martelos. e o homem viu que era bom. dia três. no dia quatro, o homem criou o papel e os pequenos cantos. e os homens se recolhiam, reapareciam, escreviam e liam. e o homem viu que era bom. dia quatro. no dia cinco, o homem criou o amor e o ódio, a alegria e a tristeza. e os homens fizeram amor e filhos e brigavam e faziam festas. e o homem viu que era bom. dia cinco. no dia seis, o homem criou as viagens e os descobrimentos. e os homens foram da cidade para o campo e do campo para a cidade e descobriram os óculos e o gramofone. e o homem viu que era bom. dia seis. no dia sete, o homem criou as histórias e os brinquedos. e os homens inventaram e brincaram. e o homem viu que era bom. dia sete. no dia oito o homem não criou deus, porque tudo estava bom assim.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

sino

sabendo dos meus pesadelos instransigentes, ontem, de dia das mães, a leda me deu um sino que filtra os sonhos. pediu para eu pendurá-lo ao lado da cama porque, durante a noite, ele agiria sobre mim, afastando os pesadelos. nessa noite mesmo sonhei com uma tela de computador, onde se liam as seguintes instruções: "como mudar as configurações do passado".

quarta-feira, 6 de maio de 2015

gravidez

das três, grávida, pregnant e enceinte, está claro que pregnant é a mais grávida das palavras. isso porque grávida vem de gravidade, peso e, gentil, mas implicitamente acusatória, chama a mulher de, simplesmente, gorda. já enceinte vem de rodear e, nem tão sutilmente, aponta a grávida como mulher circular. mas pregnant é impregnada, pregnante. ou seja, a melhor palavra grávida para grávida é mesmo prenha e não grávida. e não me venham com o eufemismo "estado interessante".

sexta-feira, 1 de maio de 2015

balde

experiência três: a mesma piada do balde, agora só com adjetivos ( e também com vírgulas e a licença do jovem, aqui usado como adjetivo e substantivo).

velha, jovem, plácido amplo marejante, arenoso. líquidas ondulantes devorantes jovem. velha teimosa: onipotente! misericordioso! jovem querido, amado! ondulantes obedientes, jovem emergente arenoso. velha agradecida, razoável: onisciente! útil lúdico côncavo, esquecido?

sexta-feira, 24 de abril de 2015

tentativa

experimento dois: a mesma piada da avó, neto e balde, agora sem pronomes, verbos ou adjetivos.

a avó na praia, com o neto. neto em meio às ondas. vó: deus, por favor, o netinho de volta! menino outra vez, a salvo. avó, sem mais, para deus: senhor, e o baldinho?

terça-feira, 21 de abril de 2015

experimento

experimento 1: um dia sem pronomes.
para começar, uma piada sem pronomes pessoais: nem retos, nem oblíquos, nem possessivos.

a vó foi à praia levando o netinho, que foi engolido por uma onda. a velha implorou a deus: senhor, traga o netinho de volta, por favor. a onda veio e o menino ressurgiu, intacto. a avó, razoavelmente satisfeita, reclamou: tudo bem, deus, mas e o baldinho?