quarta-feira, 17 de agosto de 2016

pelos

fui conferir meus pontos num sistema de prêmios chamados multiplus, que corresponde aos gastos no cartão de crédito. já tinha um número razoável e a tati disse que eu talvez pudesse conseguir um prêmio interessante. o resultado foi que eu tinha direito a um instrumento para tirar pelo do nariz. não sei como se chama esse objeto. não tenho pelos no nariz. mas penso que, finalmente, o capitalismo cumpriu sua função e disse a que veio. o que pode ser mais útil e essencial do que isso? tirar pelos do nariz ocupa o tempo e o corpo, ou seja, faz com que a pessoa se distraia de si, o que a leva ao despojamento da matéria, de tudo o que lhe pesa no espírito e no bolso. tirar pelos do nariz arranca a pessoa do frenesi de consumismo e alienação do mercado. tirar pelos do nariz faz com que as pessoas se tornem menos capitalistas. é o capitalismo, em sua essência, levando a sua auto-destruição. as profecias cumpridas de marx. não quis a coisa, não resgatei o prêmio. deixei acumular para, talvez, um descaroçador de azeitonas. e, depois, não queria ser eu a destruir a importância de movimentos como o occupy e as jornadas de junho de dois mil e treze.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

bode

todos os dias acordo para uma nova etimologia. não sei qual ela será. talvez claraboia, que é caminho claro ou enjoo, que vem de ódio. tanto quanto eu a procuro, ela me acha e, quando ela me chama, atendo. sou eu que estou sendo descoberta e encontro, em minhas origens, raizes que vêm do árabe e do japonês. vou folheando dicionários, comparando passados e adivinhando as derivações, concluindo que a etimologia é, tanto quanto uma ciência, também uma história, um caso e uma previsão conveniente da memória. por exemplo, filólogos supõem que tragédia venha de tragos, bode, mas isso não é uma certeza. penso: quero que seja o bode, pois assim o bode expiatório seria o trágico acima de tudo. e, como quero, assim será. minto a certeza do bode. traio os leitores e espero, pacificamente, que eles me perdoem ou esbravejem. vocês que nos adivinhem.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

gata

sabe por que minha gata é linda? porque ela não sabe que não sabe; porque ela sabe, sem que o saber tenha objeto; porque ela olha para as coisas como se as coisas fossem ela e ela fosse as coisas; porque agora, agora mesmo, é agora e esse agora fica completo quando olho nos olhos dela; porque a consistência do seu corpo carrega uma gata que coincide exatamente com os limites que ela desenha no espaço; porque ela me ama sem pensar que me ama, nem sabendo o que é amar; porque ela está além, e, por isso, aquém de alberto caeiro e de drummond; e até de e.e.cummings, que queria ter chegado nela; porque ela é igual a todos os gatos mas diferente de todos eles; porque ela é uma dama perto da minha cachorra, que, por sua vez, é uma vagabunda e é por isso que também amo ela; porque ela me explicou, um dia, o que era a elegância e eu não entendi muito bem, mas pelo menos agora tenho um modelo inatingível; porque ela tem um rabo que mexe de um jeito diferente para cada coisa e, finalmente, porque ela gosta muito de danoninho sabor morango.

domingo, 31 de julho de 2016

óbvio

escrevo porque quero reconhecer a obviedade do óbvio. escrevo porque quero desconhecer a obviedade do óbvio.

sábado, 23 de julho de 2016

vão

desorganizar os roteiros agradáveis do mesmo e especular as estrelas do nada abracadábrico do vão.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

nada

às vezes acho, sinto, que estou quase raspando no não nome, no não centro, no centro do quase nada, no nada do quase, até lá. mas, logo, então, resisto. retorno para o nome errado das coisas que são quase coisas, quase palavras, quase reais. fico aqui, onde se pode, por pouco, ainda fazer uma coisa, quase nada, pelo que não foi, não é, talvez seja. quem sabe lá, onde quase fui, que avistei, também desse, mas lá é tão longe, tão perto, não vou, não.