terça-feira, 10 de janeiro de 2017

filosofia

a filosofia, propriamente, começa quando se percebe que não há resposta para a pergunta: o que é o bem? e que é impossível encontrar uma conceituação universal que dê conta de todas as possibilidades contingenciais a ele relacionadas. e a filosofia, a partir daí, passa a ser uma pergunta sem resposta correta, cuja resposta está na ação de sua busca. ao buscar responder o que é o bem, o indivíduo está nesse caminho, pois nele interessado. o bem, para a filosofia ocidental e pós grécia do século quinto, é isso. buscá-lo.

domingo, 1 de janeiro de 2017

eis

"eis" é o fenômeno, a presença, o instante. "eis" é a língua portuguesa, a língua em auge, em transe de gozo falante. "eis" é a própria palavra em estado de soltura aérea, o sol semântico iluminando a página. "eis" é a pessoa viva, chegada, próxima de mim e de você, olhando no olho do furacão anímico e dizendo: "eis-me". "eis" é a vida bruta e líquida, o que é e está, em contraposição a todos os "anti-eis", coisas que não existem, como o dinheiro e a expressão "conforme foi dito acima".

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

escudo

quando era professor de filologia, em basel, nietzsche pediu aos alunos que, durante as férias, lessem com atenção o trecho da odisséia em que é descrito o escudo de aquiles. na volta às aulas, ele perguntou a um dos alunos se ele havia lido o trecho e o aluno, temeroso, respondeu que sim, apesar de não havê-lo lido. nietzsche, então, pediu a ele que descrevesse o escudo. o aluno ficou quieto e nietzsche aguardou em silêncio durante dez minutos, o tempo que ele estimava necessário para que o escudo fosse descrito minuciosamente. ao final desse prazo, nietzsche voltou à aula, dizendo: agora, depois de ouvirmos a descrição perfeita do escudo de aquiles, podemos voltar à matéria normal.

domingo, 11 de dezembro de 2016

sábado, 26 de novembro de 2016

futuro

o celular me avisa que não tenho nenhum lembrete futuro. mas gostaria de tê-los. gostaria que o futuro me mandasse lembretes sobre como ele terá sido passado. que o futuro sentisse saudades de não ter acontecido ainda. que ele dissesse: não venha agora não, que por aqui as coisas estão complicadas. ou então o contrário: você não imagina como está bom por aqui, aguardo sua chegada ansioso. que ele indicasse o caminho mais longo para eu seguir até chegar nele. ou então que ele se tocasse da sua inexistência e entendesse que, quando ele chegar, ele não será nada. que ele saísse do aviso do celular e ficasse sossegado lá, sem me encher o saco.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

mundo

o mundo é um homem velho que está dormindo. logo logo ele acorda. acorda, mundo. vem uma criança novinha, passa a mão na sua cabeça, o mundo a ergue, sonolento, não entende onde está, que dia é, que horas são. esqueceu. pergunta à criança: em que lugar estou? ela responde: mundo, você é todos os lugares. mas qual é o dia? o dia é você mesmo. o mundo se espreguiça. não gostou de ser ele mesmo o tempo e o espaço. boceja. menina, você pode me fazer um favor? posso sim, mundo. quando der dez para as nove, de uma terça de manhã, você me acorda de novo? preciso tomar um remédio novo. mas hoje não, tá, por favor. hoje ainda vou dormir um pouco mais. a menina concordou.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

confiança

uma reação comum, quando apresento uma interpretação surpreendente de algum texto literário, é perguntar: "mas será que o autor pensou mesmo nisso?". acho estranho, para ser delicada. é um tipo de negação da própria surpresa, do espanto estético, da confiança na potência criativa. antes de entregar-se à credulidade, é melhor armar-se de desconfiança: será mesmo? mas em que mesmo a desconfiança ou a comprovação impossível de que o autor teria ou não teria pensado naquilo modificam o espanto interpretativo? em que reside a superioridade inútil de achar que, caso o autor não tenha pensado nesse efeito, a grandeza passa a ser menor? penso que é uma espécie de sub-produto, para o lado estético, do fetichismo hábil da descrença. como descrer é fácil! acreditem, se quiserem gostar de literatura. acreditem nas interpretações mais absurdas, se elas lhes parecerem convincentes, e garanto que serão mais felizes na confiança inútil da ignorância sobre as escusas ou lídimas intenções dos autores.