sexta-feira, 19 de setembro de 2014

água

o poema que eu mais gostaria de ter escrito:

row row row my boat
gently down the stream
merrily, merrily, merrily, merrily,
life is but a dream


row, boat e stream são palavras marinhas, hídricas, são a própria água
gently é a melhor forma de estar na vida
merrily é mais feliz que happy, que glad, que joyful
a construção "is but a" é a que melhor designa algo incomparável para a qual, infelizmente, não há tradução no português
três vezes row dá a sensação de remar como a vida, como constância, imanência e ondulação
merrily quatro vezes é a própria felicidade

ainda há tanto a dizer e, ao mesmo tempo, nada a ser dito.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

nós

ocês falam muito, disse o homem. e vocês, não falam? não. nós prefere ficar quieto. nós não têm muito o que dizer. então como vocês fazem pra reclamar, pra exigir? nós exige assim mesmo. quieto. e vocês assim, quietos, conseguem o que vocês querem? às veiz. outras veiz não. mas não seria melhor falar? é, pode ser. mas nós prefere ficar quieto mesmo.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

dedo

"fiction"vem de "finger", dedo, porque era com o dedo que se dava forma às invenções produzidas. dou um dedo, sem nem pesquisar, que é daí também que vem o nosso "fingir", tradução corrompida e criativa de "finger" e de "ficção" ao mesmo tempo. ou seja, e para todos os efeitos, ficção é fingimento. o resto é só e monotonamente a verdade.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

água

- quantos olhos cabem em uma mulher? quantos tratores? grades, tímpanos? quantos modos, verdades, mentiras, espelhos, fraldas, sábados, elevadores, garagens, enciclopédias, moedas, cus, porradas, diamantes, lábios? muitos ou poucas? nenhuns ou infinitas? cinco ou setecentas?
- um copo d'água, por favor - ela respondeu.

sábado, 23 de agosto de 2014

colar

enfiei um cordão em volta do pescoço da catarina, minha sobrinha-neta de um ano e meio, e disse assim: olha, cata, um colar. ela apontou para o colar que eu tinha no pescoço: "coiai. ôto. dois." fiquei espantada com a esperteza dela e por constatar que ela sabe mais sobre o mundo do que metade da humanidade.

domingo, 17 de agosto de 2014

elas

quem são "elas"em "agora é que são elas"? serão as onças que bebem água? ou as chuvas onde as pessoas saem para se molhar? ou as essências que estão nos menores frascos? ou as panelas velhas que fazem comidas boas? ou as galinhas que encheram os papos de grão em grão? ou as águas passadas que não moveram os moinhos? ou as andorinhas sozinhas que não fizeram verões? ou as colheres que não se meteram nas brigas de marido e mulher? ou as boas intenções que encheram o inferno? ou são as muitas esmolas das quais os santos desconfiaram? ou as laranjas nas beiras das estradas? ou as cordas que sempre arrebentaram do lado mais fraco? ou as pérolas que não foram dadas aos porcos? quem são? hein?

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

etimologia

a etimologia é a utopia do passado atrás de um porvir menos quebrado. é o anjo de klee ao contrário, sendo arrastado para antes e vendo, as suas costas, um futuro sombrio que pode vir a ser melhor.