sábado, 23 de julho de 2016

vão

desorganizar os roteiros agradáveis do mesmo e especular as estrelas do nada abracadábrico do vão.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

nada

às vezes acho, sinto, que estou quase raspando no não nome, no não centro, no centro do quase nada, no nada do quase, até lá. mas, logo, então, resisto. retorno para o nome errado das coisas que são quase coisas, quase palavras, quase reais. fico aqui, onde se pode, por pouco, ainda fazer uma coisa, quase nada, pelo que não foi, não é, talvez seja. quem sabe lá, onde quase fui, que avistei, também desse, mas lá é tão longe, tão perto, não vou, não.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

meia

em português é menos vaidade, menos meias. em inglês, less vanity, fewer socks. como prefiro o português, em que vaidade e meias não se dividem em contáveis e não contáveis, como em inglês, em que se diz countable and uncountable nouns. quem disse que meias são mais contabilizáveis do que a vaidade? eu diria até que é o contrário. as meias é que são da ordem do abstrato, do conceitual e a vaidade está mais para o pedestre. mas prefiro mesmo é essa indistinção entre açúcar, amor, flocos de chocolate granulado e angústia. tudo menos.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

alguém

tudo está sempre em estado de coincidência, incidindo ao mesmo tempo. para que se torne uma espécie de milagre, basta que alguém as reúna numa história. as coincidências são o amor de alguém por uma narração.

terça-feira, 28 de junho de 2016

ovo

o rapaz me perguntou: noemi, o que você aprendeu na vida? não sabia responder. era como se não tivesse aprendido nada, nunca. quis que fosse assim, por um pouco. moço, nunca aprendi nada não. aliás, teve duas coisas, faz menos de uma semana: pica-paus podem voar de frente, de costas e até de ponta-cabeças e se um ovo boiar num recipiente com água, é porque ele está passado.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

exceção

beira o ridículo o argumento de abrir um precedente, quando alguém pede que se abra uma exceção. "olha, eu até gostaria, mas não é certo abrir um precedente, porque daí todos vão querer". que papo furado! na verdade, a pessoa não quer e está usando uma desculpa, porque abrir um precedente é praticamente sinônimo de exceção e as exceções existem para serem abertas, senão não o seriam. e abrir exceções, ou precedentes, é uma das coisas mais humanistas e generosas que se pode fazer, porque levam em consideração a circunstância, a individualidade e a necessidade do outro, sendo que a regra desconsidera tudo isso. e não é verdade que, depois de aberta uma precedência, todos virão atrás, porque aquelas circunstâncias, que justificaram a exceção, não se repetirão. abram exceções, gente, pelamor!

domingo, 12 de junho de 2016

clãopsia

não quero que meus livros sejam reconhecidos como romances, contos, crônicas, poemas, memórias. quero chamá-los de: coisos, aporveitamentos (assim errado mesmo) ou então clãopsias. e mais: quero uma categoria nos concursos para clãopsias, prateleiras nas livrarias e críticos especializados. ou melhor: livrarias especializadas em clãopsias, cadeiras universitárias, professores, público, viagens internacionais. tudo onde todas essas pessoas falem só o que quiserem, palavras esquisitas, novas, inventadas e os prêmios sejam ou muito dinheiro, muito mesmo ou então nada: uma entrada para o playcenter, um vale-compras no shopping eldorado, um bumerangue. e todos se entenderão porque não haverá palavras específicas para as pessoas se entenderem e todas as palavras serão possíveis, inclusive "ao nível de", "eu enquanto pessoa" e "o quid da coisa".