quarta-feira, 29 de outubro de 2014

anjo

como deus só se ocupa das grandes causas, ele deixa as pequenas encrencas do cotidiano para os anjos do primeiro segundo e terceiro escalão. conforme as necessidades das pessoas, os anjos se responsabilizam de forma personalizada por alguns indivíduos. meu anjo particular, por exemplo, é o anjo de vagas para estacionar. eu nunca penso nisso porque, chegando em qualquer lugar, todos sabem que, estando comigo, aparecem vagas. dos outros problemas, entretanto, eu mesma preciso
cuidar, porque a mim só coube esse anjo. mas ele me satisfaz. quando eu não estou usando o carro, ele faz outras coisas também, como encontrar um restaurante ótimo e barato próximo a lugares onde estou perdida em cidades desconhecidas ou fazer os livros me acharem nas livrarias, em vez de eu
precisar procurá-los.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

cara

sabe aquele cara que você viu ontem na rua, comendo um hot dog merreca, mexendo nos bolsos, olhando para os lados, com uma roupa esquisita, uma expressão meio louca, que parecia assim meio sem eira nem beira, aquele cara, enfim, por quem você não dá nada e que hoje você já esqueceu? pois então. esse cara tem uma história. e ela é linda.

domingo, 12 de outubro de 2014

mira schendel

alguns artistas, como mira schendel, chegam a um tal grau de penetração e integração com a linguagem artística, que atingem um lugar em que tudo o que fizerem, pensarem, produzirem, é arte.  se mira desenhasse um traço, seria arte. se escrevesse "e", seria arte. e, por outro lado, também não precisam mais dizer "isso é arte", "isso não é arte", porque ultrapassaram o campo do classificável. chega esse momento em que não é preciso mais ativar um repertório simbólico para se produzir linguagem, porque, para alguns, tudo é simbólico e nada mais precisa ser simbólico. comer é linguagem e pintar é vida.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

comparação

as comparações inesperadas que alberto tassinari vem fazendo há algum tempo no facebook, embora sempre dentro da mesma linguagem - a arte -, para mim são como voltar ao mundo da analogia, que há muito vem sendo substituído pelo da ironia, como diz octavio paz. são aproximações de um tempo em que parecia possível juntar natureza e cultura, céu e terra, humano e animal, corpo e alma, pessoas com pessoas, iguais com diferentes, passado com presente. estas comparações, momentaneamente, me salvam de um mundo em que tudo se separa, sem metáforas possíveis.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

machadinha

quem será o dono da machadinha, que se desespera por alguém ter posto a mão nela, sabendo que ela era dele? e por que será que ele declara tamanho amor a ela, dizendo que ele é dela, se ela for mesmo dele? e por que será que ela pula no meio da rua?

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

futuro

sonho que estou na estação errada do trem. ou no trem errado. ou no horário errado. ou com as pessoas erradas. sonho desajustes assustadores. a memória: um trem cuja passageira se atrasa ou se adianta. o tempo da memória é implacável: nunca sou simultânea a ele. para o trem-memória, o presente já é passado. para a passageira desmemoriada, o presente é quase um futuro.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

água

o poema que eu mais gostaria de ter escrito:

row row row my boat
gently down the stream
merrily, merrily, merrily, merrily,
life is but a dream


row, boat e stream são palavras marinhas, hídricas, são a própria água
gently é a melhor forma de estar na vida
merrily é mais feliz que happy, que glad, que joyful
a construção "is but a" é a que melhor designa algo incomparável para a qual, infelizmente, não há tradução no português
três vezes row dá a sensação de remar como a vida, como constância, imanência e ondulação
merrily quatro vezes é a própria felicidade

ainda há tanto a dizer e, ao mesmo tempo, nada a ser dito.