sábado, 26 de novembro de 2016

futuro

o celular me avisa que não tenho nenhum lembrete futuro. mas gostaria de tê-los. gostaria que o futuro me mandasse lembretes sobre como ele terá sido passado. que o futuro sentisse saudades de não ter acontecido ainda. que ele dissesse: não venha agora não, que por aqui as coisas estão complicadas. ou então o contrário: você não imagina como está bom por aqui, aguardo sua chegada ansioso. que ele indicasse o caminho mais longo para eu seguir até chegar nele. ou então que ele se tocasse da sua inexistência e entendesse que, quando ele chegar, ele não será nada. que ele saísse do aviso do celular e ficasse sossegado lá, sem me encher o saco.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

mundo

o mundo é um homem velho que está dormindo. logo logo ele acorda. acorda, mundo. vem uma criança novinha, passa a mão na sua cabeça, o mundo a ergue, sonolento, não entende onde está, que dia é, que horas são. esqueceu. pergunta à criança: em que lugar estou? ela responde: mundo, você é todos os lugares. mas qual é o dia? o dia é você mesmo. o mundo se espreguiça. não gostou de ser ele mesmo o tempo e o espaço. boceja. menina, você pode me fazer um favor? posso sim, mundo. quando der dez para as nove, de uma terça de manhã, você me acorda de novo? preciso tomar um remédio novo. mas hoje não, tá, por favor. hoje ainda vou dormir um pouco mais. a menina concordou.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

confiança

uma reação comum, quando apresento uma interpretação surpreendente de algum texto literário, é perguntar: "mas será que o autor pensou mesmo nisso?". acho estranho, para ser delicada. é um tipo de negação da própria surpresa, do espanto estético, da confiança na potência criativa. antes de entregar-se à credulidade, é melhor armar-se de desconfiança: será mesmo? mas em que mesmo a desconfiança ou a comprovação impossível de que o autor teria ou não teria pensado naquilo modificam o espanto interpretativo? em que reside a superioridade inútil de achar que, caso o autor não tenha pensado nesse efeito, a grandeza passa a ser menor? penso que é uma espécie de sub-produto, para o lado estético, do fetichismo hábil da descrença. como descrer é fácil! acreditem, se quiserem gostar de literatura. acreditem nas interpretações mais absurdas, se elas lhes parecerem convincentes, e garanto que serão mais felizes na confiança inútil da ignorância sobre as escusas ou lídimas intenções dos autores.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

janela

quando eu era pequena, gostava que, toda a noite, meu pai me contasse a mesma piada: o shlomo e o moishe iam dormir. o shlomo dizia pro moishe: fecha a janela, está muito frio lá fora! e o moishe respondia: mas e se eu fechar a janela, vai ficar mais quente lá fora? essa literalidade burra da piada, que me fazia rir tanto, repetidamente, me acompanha até hoje e me faz pensar se não foi ela, entre outras coisas, que me fez gostar tanto de literatura, um tipo de coisa que faz ficar mais quente lá fora.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

beijo

são muitas as tentativas de descobrir o que é que diferencia o humano dos outros animais. a história de que os humanos são os únicos que pensam é balela. os únicos que representam, também. escondem os mortos, idem. sugiro uma, talvez infalível: o beijo. o beijo que faz smack. o beijo na boca, de língua, demorado. o beijo roubado, na rua. o na bochecha, imanência da fraternidade. o na testa, de graça, bênção e cuidado. no pescoço, chupado. no umbigo, no pé, na mão, no seio, no pau, no nariz, esfregadinho. beijo de japonês, de judas, de freira, de morte, de moça, de paz, de sinhá. beijoqueiro, beija-flor, beijinho de coco, de bela adormecida. o beijo não nos salvará, porque ele não salva. ele será nossa marca do humano, quase encostando no bicho, tão perto dele que nos humaniza ainda mais e ainda distante, porque o smack e a língua prolongada sempre nos lembrarão de por que viemos ao mundo: para beijar.

sábado, 24 de setembro de 2016

caretice

necessidade de ordem é caretice. obsessão por resultados é caretice. desenvolvimento acima de tudo é caretice. dançar conforme a música é caretice. submeter-se às circunstâncias é caretice. conformar-se com o inevitável é caretice. achar que os fins justificam os meios é caretice. achar que deus dá o frio conforme o cobertor é caretice. pensar que deus ajuda quem cedo madruga é caretice. imaginar que o prazer é uma compensação pelo trabalho é caretice. acreditar que o só o esforço valoriza a conquista é caretice. dizer cada um com seus problemas é caretice. cada um por si e deus por todos é caretice. a caretice é uma doença e o remédio é desastrar-se.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

cu

amo palavrões: cu, buceta, caralho, bosta, merda, puta e suas derivações. concentram força, simbolismo e vitalidade e, ao mesmo tempo, conferem leveza e humor ao enunciado. "cu", por exemplo, seja em "vai tomar no cu", ou em "idiota é o teu cu", conjuga, em apenas duas letras, as ideias de segurança e de "não chega perto porque vou dar o troco". nesse sentido, "cu" está bem próximo de "caralho". já "merda" chega a imprimir à frase noções de lirismo, desamparo e pedido de ajuda. é só ouvir alguém dizer "merda" e sentir vontade de ajudar. com "bosta" ocorre algo semelhante. "puta" é altamente maleável e serve para elogios, reclamações, esquecimentos, tudo com alto teor de expressividade e afeto. palavrões são patrimônios da língua, sempre a postos para transformações, adaptações e novidades e sempre de forma sucinta e potente. vão sobreviver às palavras chatas, como "altissonante" e "de acordo" e o "fodido", coringa campeão, se deus quiser ainda enterrará o insuportável "ferrado".