quinta-feira, 11 de novembro de 2010
everest
uma declaração de amor que eu queria ouvir agora: vamos juntos dar a volta no quarteirão, entrar naquela igreja onde o padre diz que joga bingo, olhar os móveis que estão à venda dentro da rotatória, roubar um rolo de fita adesiva da fábrica na outra esquina e depois almoçar no chinês chamado everest?
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
pau
tinha dificuldades em fazer amizades quando era pequena. na praia, então, minha mãe se aproximava de alguma criança e perguntava: "quer ser amiguinho da minha filha?", com isso quase me enterrando na areia de vergonha. a criança geralmente queria e ficava minha amiga. hoje, penso que aprendi, com ela, que ser cara de pau é uma subversão de conteúdo até político. trata-se de uma contorção na expectativa de decoro, que desarma o interlocutor e o obriga a atitudes mais sinceras, porque impensadas.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
que
a frase que deus dirige a moisés, quando se apresenta a ele sob a forma de sarça ardente, diz assim em hebraico: "ani ma she ani". como não há verbos no presente do indicativo em hebraico, a tradução literal desta frase, em português, ficaria assim: "eu o que o que eu". creio não existir tradução mais perfeita para a intenção de totalidade e eterna presença contida nesta frase. ao mesmo tempo, ela também soa como um absurdo eterno extraído de um livro de beckett. enfim, o nada de beckett está muito mais próximo da unidade divina do que nossa incapacidade linguística é capaz de alcançar.
sábado, 6 de novembro de 2010
mia
há dias venho tentando escrever um poema lindo, falando muito mal de um homem-ideia e não consigo. só saem coisas-ideias horríveis. e depois, quando eu olho para ela e a vejo brincando com um peixinho minúsculo de plástico, surfando num anúncio de jornal, se escondendo dos raios da chuva atrás da bicicleta e observando os acontecimentos do quintal a partir de um posto privilegiado no beiral da janela, daí as coisas-ideias já ficam inutilizadas como elas já eram antes de eu escrevê-las.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
sabedoria
sabedoria da aceitação e sabedoria da recusa. não sou sábia o bastante para escolher qual delas adotar. a aceitação é o recebimento gratuito (grato e desinteressado) dos eventos em sua imanência mesma. a recusa é uma briga subversiva contra a adaptação e o hábito que a passagem do tempo forçosamente deposita sobre os mesmos eventos. como saber optar?
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
vão
clarice lispector, através de rodrigo s.m., o narrador de a hora da estrela, diz que "rezar é conseguir um oco de alma" e que não se pode querer mais do que isso. rezo, mesmo sem saber em que acredito ou mesmo se acredito, porque na reza abre-se um vão entre as palavras, um vão de palavras e por ela eu sei que posso sim, e me alegra, dizer o nome de deus em vão.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
passamanaria
ia passear com a minha mãe na ladeira porto geral e na vinte e cinco de março. ficava olhando aqueles rolos de fita, de cetim e, principalmente, os de passamanaria. tinha os de florzinha, de borboleta, de bolinha, xadrez, listrados. eu queria. eram iguais aos que tinha no bazar da rua três rios, com a mãe velha, brava e os filhos abobados que serviam a gente. mas na ladeira porto geral tudo parecia mais inacessível, profissional. um dia, sem que eu pedisse, minha mãe me comprou um pequeno rolo de passamanaria estampada. hoje descubro que passamanes são galões estampados entretecidos a fios de ouro, dentro da tradição francesa. mas, para mim, sempre foi uma corruptela de passa na maria.
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